II
Alguns minutos passados da cerimônia fúnebre, estávamos reunidos longe das covas. Diocleciano ditava toda a estratégia para salvaguardarmos nosso posto.
Enquanto ele falava, eu olhava para o horizonte tentando enxergar além das enormes dunas que se arrastavam infinitamente ao longe.
Esperava ver nossos perseguidores. Embora tenhamos nos distanciado deles, ainda estavam em nosso encalço. Poucos minutos agora nos separavam de uma nova batalha.
– Tom? – Disse Diocleciano: – Você está prestando atenção? Como se acordado de um sonho, que nunca queremos deixar, despertei para as palavras de Del.
– Os Germanos terão que passar por aquela estreita ponte de madeira, obrigando-os a se afunilar para atravessá-la. O Leito do Rio Jordão esta quase seco, mas descer até o seu leito seria algo que nem os Germanos tentariam.
Apesar de seu jeito agressivo, eu gostava de ver Diocleciano falando aos irmãos. Ele conseguia reter a atenção de todos, todos menos um: Marcelo Bertinetti, o homem de maior fé entre todos nós.
Não importava o quanto às ordens fossem vitais, Marcelo estava sempre rezando. Dizia não precisar das orientações, pois toda a orientação que necessitava vinha direto do SENHOR. E essa sua enorme convicção lhe custou à chance de partir com De Molay e os outros cavaleiros na noite anterior.
Acredito que a decisão de deixá-lo para traz tenha algo a ver com sua baixa atuação na batalha de ontem. Como sempre Marcelo não prestou atenção nas ordens e acabou se distanciando da formação combinada. Foi assim que perdemos Tobias. Marcelo cavalgava no sentido inverso da formação, conseguiu abater diversos inimigos, mas acabou cercado por eles. Tobias conseguiu evitar que um Germano separa-se a cabeça de Marcelo de seu corpo. Mas acabou sendo derrubado do cavalo. Tobias levantou-se e lutou até a morte. Nada pudemos fazer. Quando vimos ele já havia morrido. Um Germano cortou-lhe à cabeça e a ergueu como um troféu. Nunca esquecerei da tristeza estampada nos olhos de De Molay.
Ver Tobias, que era um cavaleiro muito mais valoroso que Marcelo, morto fez De Molay irritar-se de tal modo que decidiu deixar Marcelo junto com os demais. Deixá-lo para traz. Deixá-lo com os fracos. Abandoná-lo a própria sorte.
As palavras de Diocleciano continuavam mostrando como nosso pequeno grupo teria muita chance de rechaçar os ataques, desde que aproveitemos nossa posição geográfica.
Todos prestavam atenção nas palavras, concentrados, temerosos. Foi quando Del olhando para o horizonte parou de falar. De boca aberta ele ficou ali, parado, olhando para o Norte. Demoramos alguns segundos a perceber o que havia feito Del parar de falar. Uma enorme nuvem de poeira se movia lentamente na tênue linha que separava o céu do deserto escaldante. O calor fazia com que toda a paisagem torna-se turva. Mesmo assim era possível vê-los: um batalhão. Um batalhão Germano. Vinha nos destruir.
O cerco havia começado. Deus tenha piedade de todos nós.