quarta-feira, 18 de julho de 2007

Esperanza - Capítulo I

I


O Sol do meio-dia arde em nossas cabeças.
O Som oco das pás tentando cortar o solo duro dessa terra amarga e triste, me faz pensar sobre perguntas que meu coração faz a Deus todos os dias, desde o inicio desta minha humilde existência. Nenhuma resposta.
Somos apenas oito para enterrar todos os outros quatorze cavaleiros mortos, foi uma batalha muito difícil. Cavaleiros jovens demais e outros velhos demais agora esperam por sua cova. Sua ultima morada. Seu descanso final. A sua parte na partilha.
Meu nome é Thomas, sou o que podemos chamar de um mestiço, um filho bastardo da união forçada entre nobre e uma plebéia. Minha mãe, que descanse em paz, vivia uma vida de agruras e decepções que somente quem vive no deserto escaldante pode sentir.
O contato com meu pai fora muito breve. Um estupro. Um ato vil de violência de um nobre viajante para com uma mulher solidária que somente lhe oferecera água.
Anos de dissabores colecionei durante minha infância ao lado de minha mãe, que após meu nascimento foi acometida de uma dolorosa doença que a consumiu.
Ainda era jovem quando ela se foi. Conheci meu pai nesse dia, um Cavaleiro do Templo de Salomão, imponente, altivo, com sua capa branca e a cruz vermelha. Era muita arrogância da parte dele vir até aqui depois de todo o sofrimento que nos havia feito passar. Disse-me que havia se tornado Cavaleiro para se redimir de seus pecados. Meu pai ficou ali parado esperando pelos atos fúnebres de um humilde padre que viera realizar a cerimônia a seu pedido. Foi um enterro simples, sem muitas honrarias para minha mãe. Somente o suficiente para que ela encontra-se o caminho.
Os cavaleiros esticados hoje, na minha frente também não teriam tais honrarias, apenas uma pequena cerimônia feita por nós mesmos, seus irmãos do Templo. Covas rasas no meio do nada. É assim que Claudius se refere a esse lugar. Nada no meio de nada. Suas reclamações não ajudavam aos demais cavaleiros cavar com maior empenho. Diversas vezes pedimos para que se calasse. Diocleciano quase o fez calar pela força. Este eram seus modos. A espada falava por Del.
Todos nós já estávamos muito cansados por causa dos diversos dias de caminhada pelo deserto, na verdade o ritmo dessa caminhada foi muito mais exaustivo por estarmos fugindo de um grupo de Germanos que nos perseguiam há dias.
Na noite anterior, logo após uma sangrenta batalha, conseguimos nos distanciar o suficiente para organizar melhor nossas ações. Foi uma batalha difícil onde perdemos diversos dos nossos. A maioria abandonada no campo, os abutres seriam suas covas. Os poucos feridos que conseguiram escapar estão todos entre nós. Adriano é o único ferido que ainda anda, agora cavando as covas dos outros.
Muitos caíram frente ao inimigo. Muitos se sacrificaram em nome do Estandarte de Cristo. Muitos irmãos, muitos amigos, todos mortos.
No deserto um simples corte pode se tornar uma terrível ferida que jamais cicatriza. Eu mesmo ainda carrego com pesar um corte profundo causado por uma lança inimiga. Sempre que cavalgo dói. Dói muito. Felizmente não terei mais que cavalgar.
– Já está bem fundo. – Disse-me Adriano fincando sua pá ao lado da pequena cova que havia cavado.
– Acho que aqui também já acabamos – Respondeu Claudius.
Todos pareciam querer parar de cavar. O cansaço nos consumia a cada batida da pá contra a terra. O sol, indiferente, queimava a terra com seus raios cortantes. Deus podia tê-lo feito girar em torno da Terra a uma distancia maior.
Os sons das pás foram diminuindo dando lugar ao som das lamentações de Claudius:
Eles podiam ao menos ter nos ajudado antes de partirem.
Cale-se Claudius, tente respeitar os mortos. – Bradou Diocleciano, que continuava cavando uma cova. Aliás era o único que não havia parado de cavar. Sua convicção parecia inabalável.
Debrucei-me sobre a pá tentando esconder o cansaço que me consumia. A dor do ferimento em meu peito ardia cada vez mais.
Começamos finalmente colocar os corpos nos buracos tomando cuidado para cobri-los o mais dignamente possível. Seus mantos cobertos de sangue e terra não seriam lavados, seus pés e corpos também não receberiam o mesmo tratamento. Somente seus corpos seriam cobertos pela cruz em seus mantos. Eram Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão, mereciam todas as honras por seus sacrifícios. Não teriam.
Improvisamos a sagração de uma missa. Alguns de nós rezávamos o Credo enquanto os outros cobriam os corpos com terra.
– Do pó ao pó – Balbuciou Claudius.
Marcelo Bertinetti, o mais crente entre nós largou a pá e posicionou-se em frente às covas. Fez um sinal da cruz e começou:
– O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranqüilas. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu nome. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias.
Marcelo terminou a oração fez o sinal da cruz e finalmente o silencio tomou conta de todo o lugar. Silencio doloroso, frio.
Ficamos ali, em pé, sob o sol escaldante. Tentando não chorar. Adriano simplesmente se entregou aos sentimentos. As lagrimas tímidas se tornaram dolorosos soluços e gemidos.
Todos acabamos chorando internamente. Todos se olharam.


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